Kilombo, Chilombo, Povos Bantos, Angolanos, enfim, Africanos
Foram, no sacrifício, trazidos como escravos para o Brasil nos séculos XVII e XVIII. Nossa economia rural, nosso progresso industrial, manufatureiro e extrativista, desde então, baseou-se no suor e sangue desta gente que passou – e passa – por um processo estranho: a discriminação. O excesso de melanina na pele (negros) se traduz pela rejeição de uma raça que ergueu cidades, monumentos e contribuiu para o esplendor de instituições como igrejas, sociedades familiares e fazendas, integrando a cultura dos povos em geral.
Existem quilombos por todo o Brasil. Entretanto, é no Nordeste que se evidenciou a tentativa dos escravos de se organizarem em comunidades, conservando suas culturas, hábitos, cantigas e danças. Contudo, em Minas Gerais a presença dos negros também foi intensa, assim como a existência de quilombos.
Durante o ciclo do ouro, nos séculos XVI, XVII e XVIII, eles fugiam pelo mato, perseguidos por capitães do mato e cachorros. Eram alcançados e tratados como feras. Considera-se uma história gloriosa de um povo que contribuiu de toda maneira para a conservação da família, mas que não teve a mesma sorte quando se tratava do convívio com os brancos. Infelizmente, a escravidão foi considerada como uma história de holocausto.
Em média, um escravo durava apenas sete anos após atravessar o mar em navios negreiros, comendo – quando comiam – restos de peixe salgado já em decomposição, misturado com pimenta e outras especiarias para despistar o mau cheiro. Os trabalhos forçados nas minas, a falta de luz, de ar e a pressão que sofriam, somados a estas dietas, faziam com que morressem prematuramente.
Em São Domingos do Prata, embora sem documentação formal, existem vestígios sociais e históricos de um quilombo que teria existido próximo a São Nicolau do Gândara: o Quilombo da Charneca. Esse local foi percebido, estudado e valorizado pela ação de um pratiano socialmente ativo, o Padre Antônio (Titone).
Na década de 1970, junto com outros conterrâneos, Titone entrou em contato com um alemão chamado Frank Bruno Bemmerileim, visitante e pesquisador de alimentação alternativa. Juntos, fundaram associações de intercâmbio cultural entre África, Brasil e Alemanha, tentando evidenciar fatos históricos e folclóricos.
Charneca, desde a Península Ibérica Medieval, é um recanto de campinas e serras, geralmente cobertos por gramíneas, abrigando famílias e suas crianças. Notável e louvável foi o esforço realizado em nossa terra, pesquisando e trazendo à luz um pouco do que teria sido este processo dos afrodescendentes.
Dona Maria de Lourdes Camilo é hoje a moradora mais antiga do Quilombo, residindo há 66 anos naquelas terras. Infelizmente, quando chegou em 1942, não havia ninguém, nenhum vestígio que recordasse os momentos passados na antiguidade. O local era rodeado de vegetação fechada. Quando a família chegou, enfrentou bastante dificuldade para se instalar.
A moradia era uma tolda, segundo Dona Maria, feita com estrutura de madeira e coberta com capim, sem paredes. Viviam com muita dificuldade. As residências mais próximas ficavam em São Nicolau.
Foram morar a princípio nas terras do Quilombo o pai de Dona Maria, ela própria, uma tia e dois dos quatro irmãos. A mãe e dois filhos menores ficaram no Frade, um povoado no qual residiam, uma vez que era muito difícil alcançar tais paragens. Todo fim de semana, a parte da família que habitava o Quilombo ia ao Frade
sempre iam à missa aos domingos, tradição familiar. A fé era a companheira dos moradores. Em certas épocas Nossa Senhora Visitadora passava por lá. Taquara era a iluminação daquela família quando chegava a noite. Mais tarde foi lamparina e vela. Somente em 2003 foi que a luz elétrica chegou ao povoado.
Muitos anos após esta primeira moradia ter se estabelecido, surgiu uma nova família na localidade, onde na década de 70 o Frank (Alemão) foi habitar.
Apresentam-se a seguir os depoimentos, comentários e registros históricos que compõem o livro da Chameca. Quem por lá passa, visitando e admirando sua cultura divulgada pelo Padre Antônio, vê Frank deixar sua mensagem.
Hoje, Dona Maria, com 78 anos de idade, vive em uma residência humilde junto à família composta por três netos e um bisneto. Além dela, existem apenas três casas.
13. Descrição:
O fechamento do terreno é em cerca de arame, possuindo emendas visíveis, partes faltantes e ferrugem. A cerca, mal preservada, delimita os limites do terreno com matas fechadas, pequenos alqueires de terra e plantações particulares. O terreno se localiza numa vala onde uma cachoeira, a Cachoeira da Chameca, abastece com suas águas as moradias e os plantios.
As edificações possuem um andar e seu acesso é por estrada de terra. O estado de conservação é ruim em sua maioria, apresentando descolamento de pintura, ataque de cupins, emendas visíveis, umidade, trincas, rachaduras, desprendimento de camadas e outras avarias.
As instalações elétricas são da CEMIG, a hidráulica vem da nascente da cachoeira e o esgoto é destinado à fossa.
14. Análise do entorno — Situação e ambiência:
O acesso é através de estrada de terra. Todo o entorno do quilombo é destinado a plantio particular e matas, sem nenhum elemento urbano. Há a presença de três casas.